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Dicas de rotina

50 condutas da microbiologia hospitalar. Cada uma entrega o passo a passo da técnica e o impacto clínico no laudo.

Esquema do fluxo de uma amostra: coleta, frasco de hemocultura, placa, lâmina e antibiograma

Pré-analítico e Gram

Nenhuma técnica salva uma amostra ruim. É aqui que se decide se o resultado vai significar alguma coisa para quem está na beira do leito.

Diagrama de campo microscópico com cocos em cachos à esquerda e bacilos à direita
  1. 01

    Escarro: leia a lâmina antes de semear

    Escore de Bartlett — mais de 25 células epiteliais por campo de menor aumento indica saliva, não secreção de via aérea inferior. Rejeite e peça nova coleta em vez de processar.

    Por que importa: Evita laudar flora orofaríngea como agente de pneumonia e antibiótico desnecessário.

  2. 02

    Urina fora da janela é urina perdida

    Até 2 h em temperatura ambiente ou 24 h a 2–8 °C. Frasco esquecido no posto por meio turno multiplica contaminante e derruba a especificidade da contagem.

    Por que importa: A contagem em UFC/mL só tem valor se a amostra não incubou dentro do frasco.

  3. 03

    Swab seco não é amostra

    Prefira aspirado ou fragmento de tecido em ferida e abscesso. Swab superficial coleta colonização de borda, não o agente do processo profundo.

    Por que importa: Muda completamente a leitura de ferida cirúrgica e pé diabético.

  4. 04

    Gram é triagem de qualidade, não só de morfologia

    Anote células epiteliais, polimorfonucleares e a morfologia predominante. Esse conjunto já orienta a terapia empírica horas antes da cultura.

    Por que importa: Em sepse e meningite, o Gram é a informação mais rápida que o laboratório entrega.

  5. 05

    Descoloração: 3 a 5 segundos, cronometrados

    Álcool-acetona em excesso transforma Gram-positiva em falsa Gram-negativa. Use sempre um controle conhecido no mesmo lote de corante.

    Por que importa: Uma cocos-Gram-positiva lida como negativa muda o esquema empírico inteiro.

  6. 06

    Correlacione Gram e cultura antes de liberar

    Gram com cocos em cachos e cultura só com bacilo Gram-negativo é sinal de troca de amostra, contaminação ou crescimento seletivo. Investigue antes de assinar.

    Por que importa: Discordância não resolvida é a origem mais comum de laudo errado.

  7. 07

    Liquor não espera fila

    Processe imediatamente, em temperatura ambiente, nunca na geladeira. Centrifugue e use o sedimento para Gram e cultura; guarde o sobrenadante para antígenos.

    Por que importa: Meningococo e pneumococo são frágeis e morrem em poucas horas fora da temperatura certa.

  8. 08

    Anaeróbio não sobrevive ao transporte comum

    Aspirado em seringa sem ar ou meio de transporte reduzido, processado em até 2 h. Swab em tubo com ar entrega apenas o aeróbio acompanhante.

    Por que importa: Abscesso sem anaeróbio no laudo leva a esquema incompleto.

  9. 09

    Identificação da amostra é parte do exame

    Sítio anatômico, hora da coleta e uso prévio de antimicrobiano no pedido. Sem sítio, não há critério de interpretação nem ponto de corte aplicável.

    Por que importa: O mesmo isolado é contaminante em um sítio e patógeno em outro.

Hemocultura

É o exame com maior impacto clínico do setor e o mais sabotado por detalhes de coleta que não dependem do laboratório — mas que o laboratório precisa cobrar.

Diagrama de dois frascos de hemocultura, um com volume correto e outro com volume insuficiente
  1. 01

    Volume é o fator número um de sensibilidade

    8–10 mL por frasco em adulto. Cada mililitro a menos derruba a recuperação em torno de 3%. Em pediatria, use o volume por peso do protocolo do frasco pediátrico.

    Por que importa: A bacteremia do adulto costuma ter menos de 10 UFC/mL — pouco sangue, nenhum crescimento.

  2. 02

    Dois a três pares, sítios diferentes, antes do antibiótico

    Punções distintas na mesma janela de tempo. Par único não permite julgar contaminação, e coleta pós-primeira dose reduz muito a positividade.

    Por que importa: Sem dois sítios, não há como diferenciar contaminante de bacteremia verdadeira.

  3. 03

    Antissepsia com tempo de secagem respeitado

    Clorexidina alcoólica a 0,5–2%, fricção e secagem completa antes de puncionar. Não repalpe a veia depois da antissepsia sem luva estéril.

    Por que importa: A maior parte da contaminação por estafilococo coagulase-negativa nasce nesses 30 segundos.

  4. 04

    Não colete de cateter como rotina

    Sangue de acesso central serve para o par diferencial na suspeita de infecção de cateter, com tempo diferencial de positivação maior que 2 h — não para substituir a punção periférica.

    Por que importa: Cateter tem colonização de lúmen e infla o falso-positivo.

  5. 05

    Tempo de positivação conta história

    S. aureus, enterobactérias e leveduras costumam positivar em menos de 24 h. Coagulase-negativa que positiva depois de 48 h, em um único frasco, tem cara de contaminante.

    Por que importa: É o critério prático para não tratar contaminante como infecção.

  6. 06

    Gram positivo no frasco é telefone, não laudo

    Comunique o resultado imediatamente com o nome do plantonista, horário e quem recebeu. Registre a comunicação no sistema.

    Por que importa: Antecipar o esquema em horas altera a mortalidade em sepse — e a comunicação registrada protege o laboratório.

  7. 07

    Frasco anaeróbio também no par

    Par completo é aeróbio + anaeróbio. Bacteroides, Clostridium e alguns estreptococos só crescem no frasco anaeróbio, e ele ainda recupera facultativos.

    Por que importa: Bacteremia de foco abdominal passa despercebida sem o frasco anaeróbio.

  8. 08

    Não refrigere e não incube antes da máquina

    Frasco coletado vai direto para o equipamento. Estufa improvisada mascara o tempo de positivação e a geladeira mata o agente.

    Por que importa: Perde-se a curva de crescimento e o alarme confiável do sistema automatizado.

  9. 09

    Um frasco de três positivo com CoNS: pense contaminação

    Estafilococo coagulase-negativa, Corynebacterium, Bacillus e Cutibacterium em um único frasco, sem cateter e sem prótese, quase sempre é pele.

    Por que importa: Tratar contaminante custa vancomicina desnecessária e dias de internação.

Urocultura e secreções

Setor de maior volume e onde a interpretação — não a técnica — é o gargalo. A pergunta nunca é 'cresceu?', é 'esse crescimento significa infecção?'.

Diagrama de alça calibrada ao lado de placa de urocultura com colônias contáveis
  1. 01

    Alça calibrada e o fator de conversão certo

    Alça de 1 µL multiplica a contagem por 1.000; a de 10 µL, por 100. Confirme qual alça está em uso antes de calcular — a troca silenciosa de alça é erro clássico de plantão.

    Por que importa: Um fator errado desloca o resultado uma ordem de grandeza e cruza o ponto de corte.

  2. 02

    Ponto de corte depende da coleta e do paciente

    Jato médio sintomático: ≥10⁵ UFC/mL, mas ≥10³ já vale em mulher com cistite e agente único. Punção suprapúbica: qualquer crescimento conta. Cateter: ≥10³.

    Por que importa: Aplicar 10⁵ para tudo faz o laboratório deixar de diagnosticar infecção real.

  3. 03

    Três ou mais espécies = recoletar

    Cultura polimicrobiana em jato médio é contaminação perineal até prova em contrário. Laude como tal e peça nova amostra em vez de identificar tudo.

    Por que importa: Identificar contaminante gera antibiótico sem alvo e custo desnecessário.

  4. 04

    Bacteriúria assintomática não é para tratar

    Fora de gestante e pré-procedimento urológico, sinalize no laudo que a conduta depende de sintomas. Correlacione com o EAS (leucocitúria, nitrito).

    Por que importa: Reduz pressão seletiva e resistência no hospital inteiro.

  5. 05

    Aspirado traqueal precisa de contagem

    Trate quantitativamente: ≥10⁵ UFC/mL no aspirado, ≥10⁴ no lavado broncoalveolar. Sem contagem, colonização de tubo vira 'pneumonia'.

    Por que importa: É o que separa VAP real de colonização de via aérea artificial em UTI.

  6. 06

    Isolamento antes de identificar

    Estrie até obter colônia isolada e repique antes de qualquer prova bioquímica ou automação. Colônia mista quebra painel e antibiograma.

    Por que importa: Painel rodado em cultura mista gera perfil de sensibilidade inexistente.

  7. 07

    Candidúria pede contexto, não antifúngico automático

    Levedura em urina de paciente sondado costuma ser colonização. Sinalize sonda, sintomas e neutropenia antes de sugerir tratamento.

    Por que importa: A conduta na maioria dos casos é trocar a sonda, não prescrever fluconazol.

  8. 08

    Secreção de ferida: descreva o que cresceu e quanto

    Laudo semiquantitativo (raras, moderadas, numerosas) com correlação ao Gram vale mais que uma lista de espécies sem hierarquia.

    Por que importa: Ajuda o clínico a decidir quem é o agente dominante e quem é acompanhante.

  9. 09

    Coprocultura tem alvo definido

    Salmonella, Shigella, Campylobacter e E. coli diarreiogênica conforme o quadro. Não laude flora intestinal normal como achado.

    Por que importa: Laudar comensal como patógeno gera antibiótico que prolonga o estado de portador.

Antibiograma e resistência

O laudo de sensibilidade é o produto final do setor. Cada detalhe técnico aqui vira decisão terapêutica dentro de poucas horas.

Diagrama de placa de Mueller-Hinton com discos de antibiótico e medição de halo
  1. 01

    0,5 McFarland semeado em até 15 minutos

    Suspensão parada perde padronização. Fora dessa janela, o inóculo muda e os halos deslocam para os dois lados.

    Por que importa: Inóculo pesado gera falsa resistência; leve, falsa sensibilidade.

  2. 02

    Mueller-Hinton com 4 mm de espessura

    Ágar fino aumenta halos, ágar grosso reduz. Placa seca, sem excesso de umidade na superfície, e semeadura em três direções com swab escorrido.

    Por que importa: Metade das discordâncias de halo vem da placa, não da cepa.

  3. 03

    Respeite a distância entre discos

    No máximo 12 discos em placa de 150 mm, 5 em placa de 90 mm, com 24 mm de centro a centro. Halos que se tocam não são mensuráveis.

    Por que importa: Sobreposição obriga a repetir o teste e atrasa o laudo em 24 h.

  4. 04

    Leia a borda de inibição total, contra a luz

    Ignore colônias satélites finas dentro do halo — exceto em Proteus, e leia sempre o swarming como borda externa. Meça pelo verso da placa.

    Por que importa: Leitura de borda parcial é a diferença entre sensível e intermediário.

  5. 05

    Confirmatórios não são opcionais

    D-test para resistência induzível a clindamicina, disco-aproximação para ESBL, cefoxitina para MRSA e triagem de carbapenemase (Blue-Carba/mCIM) sempre que o perfil pedir.

    Por que importa: Sem D-test, clindamicina 'sensível' falha no meio do tratamento.

  6. 06

    Perfil crítico é comunicação imediata ao CCIH

    Carbapenemase, VRE, MRSA em sítio estéril e multirresistência inesperada saem por telefone e registro, no mesmo turno — não esperam o laudo.

    Por que importa: Aciona precaução de contato antes do próximo contato do paciente com a enfermaria.

  7. 07

    Guarde a cepa e alimente o perfil local

    Estoque isolados relevantes e consolide o mapa de sensibilidade da instituição periodicamente.

    Por que importa: É o perfil local — não a bula — que define a terapia empírica do seu hospital.

  8. 08

    Resistência intrínseca antes de digitar o laudo

    Klebsiella sensível a ampicilina, Enterococcus sensível a cefalosporina ou Proteus sensível a nitrofurantoína são erros de identificação ou de leitura, não achados.

    Por que importa: A tabela de resistência intrínseca é o primeiro filtro de erro do setor.

  9. 09

    Categoria I mudou de significado

    No BrCAST-EUCAST, I é 'sensível ao aumento da exposição': funciona com dose alta ou infusão estendida no sítio certo. Não é zona cinzenta.

    Por que importa: Laudar I como 'resistente' descarta opções válidas e empurra para carbapenêmico.

  10. 10

    Controle de qualidade com ATCC no mesmo lote

    E. coli ATCC 25922, S. aureus ATCC 25923 e P. aeruginosa ATCC 27853 dentro da faixa antes de liberar a série. Fora da faixa, a série inteira é suspeita.

    Por que importa: Disco degradado por umidade derruba halos em toda a bancada, não em uma placa.

  11. 11

    Discos vivem em geladeira e voltam à temperatura fechados

    Cartucho selado, com sílica, retirado 1 h antes e aberto só depois de atingir a temperatura ambiente. Anote lote e validade no registro do dia.

    Por que importa: Condensação sobre o disco frio destrói o antimicrobiano antes do contato com o ágar.

Identificação e provas bioquímicas

Antibiograma certo em bactéria errada é laudo errado. A identificação é o que dá sentido a todo o resto da bancada.

Diagrama de placa com estriamento em quatro quadrantes e colônias isoladas
  1. 01

    Catalase e oxidase resolvem metade da rotina

    Catalase separa estafilococo de estreptococo; oxidase separa enterobactéria de não fermentador. Faça em colônia jovem e nunca sobre ágar sangue para catalase.

    Por que importa: Hemácia tem catalase e gera falso-positivo que desvia todo o fluxo.

  2. 02

    Rugai depende de inóculo e de leitura no tempo

    Semeie por picada e estria com colônia isolada, tampa frouxa, leitura em 18–24 h. Leitura tardia reverte o meio e inverte a interpretação da glicose.

    Por que importa: Um tubo lido às 30 h vira alcalino e o perfil bioquímico inteiro muda de espécie.

  3. 03

    Prova rápida não substitui confirmação

    Coagulase em lâmina negativa exige coagulase em tubo. Látex e testes de aglutinação sofrem com colônia velha e com autoaglutinação.

    Por que importa: S. aureus laudado como coagulase-negativa vira 'contaminante' e o paciente fica sem tratamento.

  4. 04

    Não fermentador exige atenção redobrada

    Pseudomonas, Acinetobacter, Stenotrophomonas e Burkholderia têm perfis e critérios próprios. Confirme oxidase, crescimento a 42 °C e pigmento antes de aplicar tabela.

    Por que importa: Cada gênero tem resistência intrínseca diferente e ponto de corte próprio.

  5. 05

    Levedura: germinação e cromogênico antes do laudo

    Tubo germinativo e ágar cromogênico separam C. albicans de C. glabrata, C. krusei e do complexo C. parapsilosis, cada um com perfil antifúngico distinto.

    Por que importa: C. krusei é intrinsecamente resistente a fluconazol — a espécie define a droga.

  6. 06

    Colônia velha engana qualquer método

    Repique de 18–24 h para MALDI-TOF, painel automatizado ou prova manual. Colônia de 72 h perde proteína, muda pigmento e altera a bioquímica.

    Por que importa: Score baixo no MALDI quase sempre é idade da colônia, não limitação do equipamento.

Biossegurança e controle de qualidade

O que sustenta o laudo é invisível: cabine validada, meio conferido, estufa registrada e rastreabilidade de cada etapa.

Esquema do fluxo de uma amostra: coleta, frasco de hemocultura, placa, lâmina e antibiograma
  1. 01

    Cabine de segurança para o que aerossoliza

    Suspeita de micobactéria, Brucella, fungo filamentoso e abertura de frasco positivo vão para a cabine classe II, com fluxo validado no ano.

    Por que importa: Brucelose e tuberculose ainda são as infecções ocupacionais mais comuns do setor.

  2. 02

    Estufa e geladeira com registro diário

    35 ± 2 °C para bacteriologia geral, CO₂ a 5% para exigentes, 2–8 °C para meios e reagentes. Registro com hora, valor e assinatura.

    Por que importa: Sem histórico de temperatura, nenhum resultado do período é defensável em auditoria.

  3. 03

    Todo lote de meio passa por esterilidade e desempenho

    Uma placa do lote incubada sem semeadura e uma cepa controle que deva crescer e outra que deva ser inibida, antes de liberar o lote para a rotina.

    Por que importa: Meio seletivo fraco libera contaminante; meio forte demais apaga o patógeno.

  4. 04

    Descarte é etapa técnica, não faxina

    Cultura vai para autoclave validada com indicador biológico periódico; perfurocortante em recipiente rígido, nunca reencapando agulha.

    Por que importa: O acidente mais frequente do laboratório é com agulha reencapada.

  5. 05

    Rastreie amostra, lote e operador

    Cada laudo deve permitir reconstruir quem processou, com qual lote de meio e disco e em que equipamento. Anote o desvio quando ele acontecer.

    Por que importa: Sem rastreabilidade, um lote ruim obriga a recolher meses de resultados às cegas.

  6. 06

    Laudo revisado por segunda leitura no perfil incomum

    Perfil raro, discordância com o Gram ou sensibilidade fora do padrão do serviço passam por conferência de outro profissional antes de assinar.

    Por que importa: É o controle mais barato do laboratório e evita o erro que chega ao paciente.

Padronize antes de confiar no resultado

Toda conduta aqui pressupõe controle de qualidade do lote de meio, cepas ATCC em dia e o POP do seu serviço como palavra final. Divergiu do protocolo local, o protocolo local vence.

Diagrama de placa com estriamento em quatro quadrantes e colônias isoladas